O Google Cloud apresentou o Anthos como uma plataforma aberta para executar e gerenciar aplicações em ambientes on-premises, no Google Cloud e em outras nuvens públicas.1 O anúncio tenta responder a uma dor bem conhecida de grandes empresas: a nuvem não chega como substituição limpa do datacenter, mas como uma camada adicional sobre sistemas, contratos e práticas já existentes.

Anthos nasce a partir da Cloud Services Platform e coloca GKE, GKE On-Prem, configuração centralizada e modernização de workloads no mesmo discurso. A promessa é permitir que aplicações rodem em diferentes ambientes sem obrigar administradores e desenvolvedores a reaprender cada provedor do zero.

Híbrido deixa de ser exceção

Durante muito tempo, nuvem híbrida soou como etapa temporária: um caminho até que tudo fosse migrado para cloud pública. A realidade operacional é menos simples. Bancos, varejistas, indústrias, governos e empresas reguladas carregam dependências de latência, licenciamento, soberania de dados, hardware específico e ciclos de modernização que não cabem em um projeto único de migração.

O Anthos assume essa complexidade. Em vez de vender apenas capacidade de computação, o Google tenta vender uma camada de plataforma. Kubernetes aparece como base técnica, mas o valor prometido está na gestão: políticas, atualizações, segurança, configuração e portabilidade de aplicações em lugares diferentes.

Esse movimento também reconhece que multicloud deixou de ser conversa teórica. Muitas empresas já usam mais de um provedor por aquisição, geografia, time interno ou preferência de serviço. A pergunta deixa de ser se isso é ideal e passa a ser como operar sem criar uma coleção de exceções impossível de governar.

Kubernetes como contrato operacional

Ao usar GKE como eixo, o Google aposta que Kubernetes pode funcionar como contrato comum entre equipes de desenvolvimento e operação. Isso não elimina diferenças entre nuvens nem apaga dependências de serviços gerenciados, mas cria uma linguagem compartilhada para empacotar workloads, aplicar políticas e organizar deploys.

O anúncio de Anthos Migrate reforça essa direção ao prometer migração de VMs para containers em GKE com menos retrabalho inicial. Ainda é uma proposta ambiciosa, porque modernizar aplicação não é apenas converter artefato. Envolve observabilidade, estado, rede, segurança, pipelines e responsabilidade de operação. Mesmo assim, a automação de parte desse caminho pode reduzir o custo de entrada.

A parceria com a Intel adiciona outro recado: ambientes híbridos precisam de arquitetura validada no hardware que já está no datacenter. O plano de referência pré-verificada para Anthos tenta diminuir incerteza de desempenho e implantação junto a OEMs e integradores.2

Plataforma antes de provedor

Para CIOs e arquitetos, Anthos pressiona uma decisão estratégica. Escolher nuvem passa a significar escolher também a camada de controle. Se essa camada for forte, a empresa ganha consistência e reduz fragmentação. Se for fraca, adiciona mais uma abstração cara sobre problemas existentes.

O Google está tentando se posicionar como fornecedor de plataforma, não apenas como destino de workloads. Isso conversa diretamente com empresas que não podem ou não querem apostar tudo em uma única nuvem. O desafio será provar que a promessa de portabilidade se sustenta no dia a dia, quando aplicações reais usam bancos, filas, identidade, rede, compliance e custos que raramente são portáteis por completo.


  1. Google Cloud Blog, "Introducing Anthos: An entirely new platform for managing applications in today's multi-cloud world", 9 abril 2019.
  2. Google Cloud Blog, "Google Cloud and Intel expand strategic alliance to bring Anthos to customers", 9 abril 2019.